LEGENDAS & ETCAETERA

Aspiro ao poder da glossolalia, é essa a natureza da minha «dúnamis» delivrar... criar a arte de ser lugar de passagem.

4/Jun/2007

 

Endereço

Passámos a atender neste endereço.

Pode também visitar outras habitações:

- S/a Pálpebra da Página
- Os Dois Pilares da Criação

Agradecido.

29/Mai/2007

 

Rotas da Fé - VI

A teologia em processo

Qual é a coisa, qual é ela, que obteve estes comentários?

Ó homem, como é que em tão pouco espaço, consegue escrever tanto disparate?
O Sr. tem a idade mental de uma criança de 3 anos - sem ofensa para as crianças
Professor, o Sr.? Que pânico.
Como é que o deixam dar aulas? Mesmo na Católica, é incompreensível.
Faça-nos um favor: desapareça de uma vez por todas que nos faz sentir vergonha de sermos portugueses!
BRUMO GOMAS | 29.05.2007 | 01.02H

Eu acho que a droga devia ser legalizada e regulada pelo estado, que assim poderia arrecadar milhões em IVA e poupar milhões em missões policiais. Manter a proibição é manter o tráfico.
JOS | 28.05.2007 | 23.53H

A pornografia e a homossexualidade lutam pelo reconhecimento oficial!?!? Juntas de par em par? Ao som de "I will survive"?

Eu não sei se o senhor sabe, mas são várias as leis do país que já reconhecem a homossexualidade como uma forma legítima de viver a sexualidade, da Constituição da República (art.13º) à lei das uniões de facto, p.ex.

Quanto à pornografia acho que este texto é um bom exemplo como ela prolifera sem preblemas pela imprensa...
TOMAZ ALVES | 28.05.2007 | 23.44H

E já agora, porque lhe interessa assim tanto limitar ou proibir a sexualidade? É inveja, é? Gaste a sua féria aqui do Destak com alguém profissional, e vai ver que a inveja pela sexualidade dos outros lhe passa ou lado.. se o problema é de outra ordem, saiba que hoje em dia quase não há problema médico que não se resolve com umas pilulazinhas azuis, ou em último caso com cirurgia..
JOANA | 28.05.2007 | 23.40H

Que pena sugere então para os homossexuais? Perpétua? É que diz que nunca se "curam"... mais vale manda-los logo para a cadeira eléctrica não é?
JOANA | 28.05.2007 | 23.32H
Ele Destaka-se

 

Momentos PATHÉ - IV



Love is inthe Vnukovo International Airport.


Momentos iniciais do nosso Primeiro desembarcando na república de todos os Czares: do choque inicial, de temor e tremor perante a potestade da comitiva, ao espanto levitador do futuro presidente da UE, agradecida.

27/Mai/2007

 

Variações sobre a admiração - XIII

- O que há numa copulativa?
- Nuns casos 53, noutros... descubra você próprio a diferença.
- Gosto muito de bons livros policiais.
- E eu de um bom charuto.
- A Fiama é superior a isso, homessa!

26/Mai/2007

 

O triunfo impossível

Os meus agradecimentos por mais esta medalha, que ostentarei com todo o garbo. O insucesso, até agora, ainda não me derrotou. Como Anatole France, adaptando: Sou daqueles que, entusiastas e pacientes, depois de cada derrota, preparam o triunfo impossível e certo.
Quanto ao fundo «brouillard», ando um pouco nostálgico-sandinista, mas há-de passar.

 

Momentos PATHÉ - III


Modesta contribuição para a série de estudos de Rui Bebiano sobre Os Monumentos.
A 21-8-1983, o Suplemento Cultural do defunto O Diário publicava-me este poema ao lado de insignes lusos como Óscar Lopes, José Saramago, Luís Francisco Rebelo e Urbano Tavares Rodrigues, ilustrado pela monumental arte do «Realismo Socialista» que a imagem atesta. Miguel Serrano dirigia «a coisa» e Miguel Eduardo responsabilizava-se pelo grafismo.
Passados estes anos, estou em crer que a imagem teria tido uma intenção pedagógica e exemplar, mas o «homem novo» já não passava por ali.


PS-Ainda que alguns historiadores insistam bastante na natureza transformadora dos instrumentos e técnicas novas para determinar o rumo de certos acontecimentos, uma coisa é a sua invenção, outra, bem diferente, é a sua adopção por parte dos artífices.

25/Mai/2007

 

UMA BIBLIOTECA É O SANATÓRIO DAS ALMAS - IV

«RELAÇÃO DA MUI NOTÁVEL PERDA DO GALEÃO GRANDE S. JOÃO
PRÓLOGO

Cousa é esta que se conta neste naufrágio para os homens muito temerem os castigos do Senhor e serem bons cristãos, trazendo o temor de Deus diante dos olhos, para não quebrar seus Mandamentos. Porque Manoel de Sousa era um fidalgo mui nobre e bom cavaleiro, e na Índia gastou em seu tempo mais de cinquenta mil cruzados em dar de comer a muita gente, em boas obras que fez a muitos homens; por derradeiro foi acabar sua vida e de sua mulher e filhos em tanta lástima e necessidade entre os cafres, faltando-lhe o comer e beber e vestir. E passou tantos trabalhos antes de sua morte que não podem ser cridos senão de quem lhos ajudou a passar, que entre os mais foi um Álvaro Fernandes, guardião do galeão, que me contou isto muito particularmente, que por acerto achei aqui em Moçambique no ano de mil e quinhentos e cinquenta e quatro.

E por me parecer história que daria aviso e bom exemplo a todos, escrevi os trabalhos e morte deste fidalgo e, de toda a sua companhia, para que os homens que andam pelo mar se encomendem continuamente a Deus e a Nossa Senhora, que roga por todos. Ámen.

Partiu neste galeão Manoel de Sousa, que Deus perdoe, para fazer esta desventurada viagem de Cochim, a três de Fevereiro do ano de cinquenta e dous. E partiu tão tarde por ir carregar a Coulão e lá haver pouca pimenta, onde carregou obra de quatro mil e quinhentas, e veio a Cochim acabar de carregar a cópia de sete mil e quinhentas por toda, com muito trabalho por causa da guerra que havia no Malavar. E com esta carga se partiu para o Reino, podendo levar doze mil; e ainda que a nau levava pouca pimenta, nem por isso deixou de ir muito carregada de outras mercadorias, no que se havia de ter muito cuidado pelo grande risco que correm as naus muito carregadas.

A treze de Abril veio Manoel de Sousa haver vista da costa do cabo em trinta e dous graus, e vieram ter tanto dentro porque havia muitos dias que eram partidos da Índia, e tardaram muito em ver o cabo por causa das ruins veias que traziam, que foi uma das causas, e a principal, de seu perdimento, porque o piloto André Vaz fazia seu caminho para ir à terra do cabo das Agulhas, e o capitão Manoel de Sousa lhe rogou que quisesse ir ver a terra mais perto; e o piloto, por lhe fazer a vontade, o fez; pela qual razão foram ver a Terra do Natal e, estando à vista dela, se lhe fez o vento bonança, e foi correndo a costa até ver o cabo das Agulhas, com prumo na mão e sondando; eram os ventos tais, que um dia ventava levante, outro se levantava poente. E Sendo já em onze de Março, eram nordeste e sudoeste, com o Cabo de Boa Esperança vinte e cinco léguas ao mar, ali lhe deu o vento oeste e o és-noroeste com muitos fuzis. E sendo perto da noite o capitão chamou o mestre e o piloto e lhes perguntou que deviam fazer com aquele tempo, pois lhe era pela proa, e todos responderam que era bom conselho arribar.

As razões que davam para arribar foram que a nau era muito grande e muito comprida, e ia muito carregada de caixaria e de outras fazendas, e não traziam outras velas senão as que traziam nas vergas, que a outra equipação levou um temporal que lhe deu na Linha e estas eram tão rotas que se não fiavam nelas; e que se parassem, e o tempo crescesse, e lhes fosse necessário arribar, lhes poderia o vento levar as outras velas que tinham, que era prejuízo para sua viagem e salvação, que não havia na nau outras; e tais eram aquelas que traziam, que tanto punham em as remendar como em navegar. E uma das cousas por que não tinham dobrado o cabo a este tempo, foi pelo tempo que gastavam em as amainar para coserem; e portanto o bom conselho era arribar com os papa-figos grandes ambos baixos, porque dando-lhe somente a vela de proa, era tão velha que estava mui certo levar-lha o vento da verga, pelo grande peso da nau e, ambos juntos, um ajudaria ao outro. E vindo assim arribando, que seriam cento e trinta léguas do cabo, lhes virou o vento ao nordeste e ao lés-nordeste tão furioso que os fez outra vez correr ao sul e ao sudoeste; e com o mar que vinha feito de poente e o que o levante fez, meteu tanto mar que cada balanço que o galeão tomava parecia que o metia no fundo. E assim correram três dias, e ao cabo deles lhe tornou o vento a acalmar, e ficou o mar tão grande e trabalhou tanto a nau que perdeu três machos do leme so-os polegar, em que está toda a perdição ou salvação de uma nau. E isto se não sabia de ninguém, somente o carpinteiro da nau que foi ver o leme, e achou falta dos ferros; e então se veio ao mestre e lho disse em segredo, que era um Cristóvão Fernandes da Cunha, o Curto. E ele respondeu, como bom oficial e bom homem, que tal cousa não dissesse ao capitão nem a outra nenhuma pessoa, por não causar terror e medo na gente, e assim o fez.

Andando assim neste trabalho, tornou-lhes outra vez a saltar o vento a lés-sudoeste e temporal desfeito, e já então parecia que Deus era servido do fim que ao depois tiveram. E indo com a mesma vela arribando outra vez, lançando-lhe o leme à banda, que não quis a nau dar por ele e toda se pôs de ló; o vento, que era bravo, lhe levou o papa-figo da verga grande. Quando se viram sem vela, e que não havia outra, acudiram com diligência a tomar a vela de proa, e se quiseram antes aventurar a ficar de mar em través que ficarem sem nenhuma vela. O traquete de proa não era ainda acabado de tomar quando se a nau atravessou, e em se atravessando lhe deram três mares tão grandes que dos balanços que a nau deu lhe arrebentaram os aparelhos e costeiras da banda de bombordo, que não lhe ficaram mais que as três dianteiras.

E vendo-se com os aparelhos quebrados e sem nenhuma enxárcia no mastro daquela banda, lançaram a mão a uns viradores para fazerem uns brandais. E estando com esta obra na mão andava o mar muito grosso, e lhes pareceu que por então era obra escusada, e que era melhor conselho cortarem o mastro pelo muito que a nau trabalhava; o vento e o mar eram tamanhos que lhes não consentia fazer obra nenhuma, nem havia homem que se pudesse ter em pé.

Estando com os machados nas mãos, começando já a cortar, vêem supitamente arrebentar o mastro grande por cima das polés das coroas, como se o cortaram de um golpe, e pela banda do estibordo o lançou o vento ao mar, com a gávea e enxárcia, como que fora uma cousa muito leve; e então lhe cortaram os aparelhos e enxárcia da outra banda, e tudo junto se foi ao mar. E vendo-se sem mastro nem verga, fizeram no pé do mastro grande que lhes ficou um mastaréu de um pedaço de entena, bem pregada e com as melhores arreataduras que puderam, e nele guarneceram uma verga para a vela da guia, e da outra entena fizeram uma verga para papa-figo, e com alguns pedaços de velas velhas tornaram a guarnecer esta verge grande, e outro tanto fizeram para o mastro de proa. E ficou isto tão remendado e fraco que bastava qualquer vento para lhos tornar a levar.»
in História Trágico-Marítima

 

Momentos PATHÉ - II



... areias movediças,
imagens líricas,
longas cavalgadas,
mas há sítios mortais onde «jamé»...


23/Mai/2007

 

UMA BIBLIOTECA É O SANATÓRIO DAS ALMAS - III


«São três os métodos para um homem chegar a primeiro-ministro; o primeiro é saber usar, com prudência, uma esposa, filha ou irmã; o segundo, atraiçoar e minar o terreno do predecessor; e o terceiro, mostrar nas assembleias públicas um zelo furioso contra a corrupção da corte. No entanto, um príncipe há-de preferir sempre os que praticam o último destes métodos; porque os zelosos são sempre os que mais se rendem e subordinam à vontade e paixões do seu senhor. Estes ministros, como têm todos os empregos à sua disposição, mantêm-se no poder corrompendo a maioria de um senado ou de um grande conselho; por fim, através de um expediente denominado acta de imunidade, cuja natureza expliquei a meu amo, protegem-se de quaisquer ajustes de contas que possam verificar-se e retiram-se da vida pública carregados com os despojos da nação.
O palácio de um primeiro-ministro é um seminário onde outros se educam no mesmo ofício. Pajens, lacaios e porteiros, imitando seu senhor, transformam-se em ministros de Estado das respectivas jurisdições e procuram destacar-se nos três componentes principais: a insolência, o embuste e o suborno. Deste modo, têm cortes subalternas que pessoas da mais elevada categoria lhes pagam e, por vezes, pela força da habilidade e da falta de vergonha, chegam, depois de diversas graduações, a sucessores do seu senhor.» in Jonathan Swift, Travels into Several Remote Nations of the World by Lemuel Gulliver, tradução de Carlos Sousa de Almeida

Imagem: Thomas Schutte, The Capacity Men

 

Momentos PATHÉ

..

 

Variações sobre a admiração - XII

Apologética da Mais Velha Aliança do Mundo e das Artes de Ser Católico Português.

22/Mai/2007

 

Parabéns!


Porque a minha Paris é um pouco (ou muito) a do Leos Carax, a do Mauvais Sang, do Boy Meets Girl, do Les Amants du Pont-Neuf, aqui fica ela para a mufana Chinguita no seu novel projecto:
A Segunda Metade do Século, o Meu

21/Mai/2007

 

Rotas da Fé - V


É necessário, de facto, attender ao estado da nossa cathedral e perceber em contemplação as funções heclesiasticas de certos ordenados, como nas missas cantadas por Vasco Pulido Valente, para dizer corpo prezente com todolos seus acholitos, acompahamentos de defunctos e anjos convidados a comentar as ditas aleivosias do vigário da Nação.
Como dizia a Maria Velho da Coata, «Os mostrengos domésticos, se forem atrabiliários e admoestadores com perseverança e algum jeito de língua, têm sempre razão.»

Imagem: Uma Gorda Nação de Oxfordinhos Com Suas Anedotas Bacocas

15/Mai/2007

 

UMA BIBLIOTECA É O SANATÓRIO DAS ALMAS - II

دعا دختر 17 ساله ای که در کردستان عراق سنگسار و لگد کوب شد تا جان داد و مرد






«A guerra instalara-se. Acabara de encontrar uma pátria...
Uma buzinadela fá-lo saltar para o lado. Leva instintivamente o pano do turbante à cara para se proteger da poeira. A camioneta de Abdul Jabbar passa rente a ele, quase atira ao chão um arrieiro e avança disparada, seguida de perto pelo potente 4 x 4. À vista do cortejo, o ajuntamento é sacudido por um clamor incongruente em que adultos hirsutos disputam os melhores lugares a garotos faunianos. Os milicianos têm de distribuir cacetada sem dó nem piedade para acalmar os espíritos.
O veículo detém-se diante da vala aberta de fresco. A pecadora é descida e chovem invectivas daqui e dali. A perturbação torna a instalar-se, catapultando os menos vigilantes para trás.
Insensível aos empurrões que tentam afastá-lo, Mohsen aproveita as brechas abertas pela agitação na multidão para chegar aos lugares da frente. Erguendo-se na ponta dos pés, vê um energúmeno colossal «plantar» a mulher impura na vala, cobri-la de terra até às pernas por forma a mantê-la direita e a impedi-la de se mexer.
Um molá atira as bandas do seu albornoz para cima dos ombros, avalia uma última vez aquela confusão de envoltórios sob os quais um ser se prepara para morrer e faz troar a voz:
- Há quem tenha optado por chafurdar na lama como os porcos. No entanto, conhecia a Mensagem, sabia dos malefícios das tentações, mas não desenvolveu fé suficiente para lhes resistir. É gente miserável, cega e fútil, que preferiu um momento de deboche, tão efémero quanto irrisório, aos jardins eternos. Tirou os dedos da água lustral das abluções para os mergulhar na água chilra, fechou os ouvidos ao apelo do almuadem para só escutar as obscenidades de Satã, preferiu sofrer a cólera de Deus a evitá-la. Que fazer se não dizer-lhes da nossa mágoa e da nossa indignação?... (O braço estende-se como um gládio em direcção à múmia.) Esta mulher sabia o que fazia. A embriaguez da fornicação afastou-a do caminho do Senhor. Hoje é o Senhor que lhe vira costas. Não tem direito nem à sua misericórdia nem à piedade dos crentes. Morrerá como viveu, na desonra.
Cala-se para limpar a garganta e desdobra uma folha de papel num silêncio ensurdecedor.
- Allahou aqbar ! – grita alguém do fundo da multidão.
O molá levanta majestosamente uma mão para sossegar o gritador. Depois de recitar um versículo do Alcorão, lê qualquer coisa parecida com uma sentença, torna a guardar a folha de papel num bolso interior do casaco e, meditando por instantes, convida a multidão a armar-se de pedras. É o sinal. Numa corrida indescritível, as pessoas lançam-se sobre o amontoado de pedras intencionalmente deixadas na praça umas horas antes. E logo um dilúvio de projécteis se abate sobre a supliciada que, amordaçada, vibra sob a fúria dos impactos sem um grito. Mohsen apanha três pedras e faz pontaria ao alvo. As duas primeiras perdem-se devido ao furor que o rodeia, mas à terceira tentativa, atinge a vítima em cheio na cabeça e vê, com uma insondável alegria, uma mancha vermelha surgir no lugar onde acertou. Ao cabo de um minuto, ensanguentada e aniquilada, a supliciada cai e deixa de mexer-se. A rigidez galvaniza ainda mais os apedrejadores que, de olhos revoltos e boca a salivar, redobram de ferocidade como se procurassem ressuscitá-la para lhe prolongar o suplício. Na sua histeria colectiva, convencidos de assim exorcizarem os seus demónios através da súcuba, alguns nem se dão conta de que o corpo completamente crivado já não responde às agressões, que a mulher imolada jaz morta, meio sepulta, como um saco de horrores lançado aos abutres.» in As Andorinhas de Cabul, Yasmin Khadra, Bizâncio, tradução de Carlos Sousa de Almeida



Imagem: LCP, Montanha roxa com cacto preto

 

1 DE JULHO DE 2007 - 19 HORAS


Televisões em directo do parque de campismo de Monsanto...

...porque toda a ajuda é preciosa, contribua para o pino deles: AQUI.

12/Mai/2007

 

UMA BIBLIOTECA É O SANATÓRIO DAS ALMAS - I


«OS CAMPOS DE ACÇÃO
O Económico
A psicanálise tinha sido fundada no apogeu do Capitalismo e da Primeira Revolução Industrial: os principais valores eram o carvão e o aço, as moedas dominantes a libra esterlina e o franco ouro. Não é indiferente notar que das barras aos lingotes e das balas às moedas, muitas produções eram moldadas e depois armazenadas numa pilha em que se reconhecerá facilmente uma simbólica anal.
O paralelismo entre o erotismo anal e a poupança, estabelecido por Freud, nomeadamente no seu artigo «Carácter e erotismo anal» (1908) e nos Trois essais sur la théorie sexuelle (2ª ed., 1920), desenvolvida depois por Jones a partir de 1916 na sua Teoria e Prática da Psicanálise, é o elemento mais bem conhecido do pensamento freudiano relativo ao dinheiro. Muitas vezes caricaturado, separado do seu contexto histórico e teórico, contribuiu também para manter uma certa incompreensão entre a psicanálise e a ciência económica.
O esquema freudiano da analidade inscreve-se na teoria ao mesmo tempo clássica e marxista da acumulação do capital que faz do excedente da riqueza o motor da economia. Para atingir o desafogo, há que comprimir as despesas e reduzir os juros, o «torno» de uma solitária plenitude: o Harpagão de Molière ou a Mère MacMich da Condessa de Ségur simbolizariam essa mania da poupança que a linguagem popular atribui aos «unhas-de-fome». Existe, em todos os processos de capitalização, como que uma espécie de bloqueio peristáltico, mas também um dilaceramento na evacuação. Eles levam ao paroxismo o prazer de guardar e o sofrimento de dar.
A Segunda Revolução Industrial, a do petróleo e da electricidade, é uma simbólica mais uretral do que anal. Nos hidrocarbonetos como na hidroelectricidade, os líquidos substituem os sólidos: é uma questão de sondas, de comportas, de bombas, de débitos e de tubos, de torneiras e de bocas que destilam um poder.
Neste universo de fluidos, podemos aliás hesitar entre o uretral e o genital: a corrente passa quando há suco [no original, jus, que em linguagem familiar refere também a corrente eléctrica.], vindo de um poder um pouco misterioso, e a essência flui para um reservatório que evocaria o receptáculo feminino. É também esta segunda revolução industrial que viu nascer, no seu sentido ecológico, o conceito de poluição, tomado do vocabulário moral da Igreja e remetendo para as sensações perturbantes das poluções nocturnas sentidas como emissões misteriosas ou entrevistas como produções não fecundas.»
in Psicanálise, Alain de Mijolla e Sophie de Mijolla-Mellor, Climepsi Editores, trad. de Carlos Sousa de Almeida

Imagem: Manneken-Pis

 

TINA À CML, JÁ!

..

 

Variações sobre a admiração - XI

Temos, pois, agora, a corrida. Eis o totem

E está dada a partida. O mais bem posicionado é o deus mercúrio


Imagens: Antoni Llena, Totem; fresco de Pompeia.

 

Variações sobre a admiração - X


Trabalhador-estudante de Letras, depois de solicitada a aplicação da lei ao caso, pergunta-lhe o empregador para que serve tal coisa nos dias de hoje. Ao que o dito colaborador terá respondido: ora veja, se o senhor ex-presidente da CML, em vez de engenheiro, não sei se inscrito na Ordem, tivesse lido, por exemplo, Shakespeare, As Reflexões sobre a Vaidade, de Matias Aires ou aprendido umas luzitas de Latim, não faria agora estas obsc(a)ena. Mas «que culpa tem o pano por servir de campo, ou de teatro às obscenidades do pincel? E finalmente, que culpa tem o ferro, por ser instrumento dos golpes, e da morte? As cousas em si, são inocentes; o erro é exterior, e vem de fora...»

Imagem: João Onofre - Instrumental version. Original video soundtrack

11/Mai/2007

 

Vive la France - Scènes de ménage - IV

Lá consegui ler alguém que sabe distinguir entre "compreender" e "justificar", em vez de rematar com um "Estamos conversados". Eu tenho pouca ou nenhuma paciência já para a bovinidade, embora compreenda - o que não justifica - que um "crítico" deva sempre "mostrar-se" arrogante na análise para conduzir à adesão imediata...

«Deixem a sociologia em paz

A violência voltou às ruas de França após as eleições presidenciais e era apenas uma questão de tempo até que alguém viesse colar as "explicações sociológicas" às posições da esquerda, como quase sempre acontece em casos semelhantes [Helena Matos no Público, sem link disponível]. Ora, a sociologia não justifica nada; analisa e explica, mas as justificações, essas, não se podem imputar à ciência social inaugurada por Auguste Comte. Quanto à esquerda, não se lhe pode propriamente apontar o dedo por tender a embrenhar-se um pouco mais na raiz dos problemas antes de partir para a adjectivação fácil. Compreender e justificar têm significados diferentes na linguagem científica, na linguagem política e na linguagem quotidiana, mas confundir as duas coisas é um recurso muito em voga na direita desde o 11 de Setembro.
Parece haver algumas pessoas que não simpatizam com a disciplina da sociologia e que não se coíbem de a desprezar com o fito de atacar os seus adversários políticos - como se uma ciência, com um objecto, um método e um corpo teórico definidos e autónomos, tivesse menos valor pelo tipo de problemas que elege estudar. Mas, enfim, a sociologia também explica estas formas de discussão política.» in Tempo dos Assassinos


 

Vive la France - Scènes de Ménage - III

Il aime...

Christiane Taubira analyse Sarkozy
Uploaded by da93
.

10/Mai/2007

 

Vive la France - Scènes de Ménage - II

.La jouissance des sous-entendus


Gerard Miller analyse Sarkozy
Uploaded by da93.

7/Mai/2007

 

VIVA A MADEIRA!

... que se vai da lei do colonialismo libertando rumo à independência total!

«Os escravos são as mãos e os pés do senhor de engenho.»

(Antonil, Cultura e Opulência do Brasil por suas drogas e minas..., Lisboa, 1711, cap. XI, p.22)


 

Vive la France! Scènes de ménage (à suivre)


«L'homme de ce temps a le coeur sec mais la tripe sensible», Georges Bernanos

Imagem: o Socialismo do Futuro

6/Mai/2007

 

MÃE(s)

«(...) Spartan women were known for their independence and athleticism—Aristophanes’ portrait of Lampito dramatizes this reputation in the Lysistrata. The girls were trained in physical fitness, took part in athletic events such as running and wrestling, and Sparta’s system of education, according to Plato, included training women in the arts: “There are not only men but also women who pride themselves on their intellectual culture,” he writes in Protagoras. Spartan women had better things to do than to spin and weave, tasks that they gave their servants.»

Imagem: nu feminino com dois dildos

4/Mai/2007

 

Pequenas grandes bóias - IV


Entre as Brumas da Memória

3/Mai/2007

 

CML

Por um edil que saiba fazer de Lisboa um jardim de SAKURA.

1/Mai/2007

 

E Tudo o Vento Levou ou Somos Agora um País Moderno

Paz, pão, trabalho, habitação... como cantava a canção!
1- .




2-.




A VER: Quatro fotografias históricas do 1º de Maio, no Absorto, de Eduardo Graça.


30/Abr/2007

 

Destino


«"Governments are shortsighted," and suddenly everybody in the bus is chipping in. One says not to blame governments, "it's the masses who determine events... Obscure forces whose laws are unfathomable." A woman adds, "Yes something is driving us against our will." Someone else: "Yes you have to go along with it," and people continue until someone asks, "So who is it that makes a mockery of humanity? Who's leading us by the nose?" And the first guy who spoke goes, "The devil probably," and the bus crashes and the soundtrack degenerates into horrible honking horns...», in Hell on Robert Bresson: Robert Bresson, Le Diable probablement

27/Abr/2007

 

Slava

..
Mstislav Rostropovich (1927-2007)

25/Abr/2007

 

Cravos de Abril


Cravos de Abril, um filme de Ricardo Costa.

24/Abr/2007

 

Do 25 de Abril - IV


The Carnation Revolution
(outro bom arquivo)

Imagem: Junta de Salvação Nacional

 

Do 25 de Abril - III




Arquivo de textos a consultar aqui.

Imagem: João Abel Manta.

 

«Era o Fumo» - II


Demi Moore

Afinal, parece que já há conforto suficiente nel trazado del mapa con un talento excepcional como navegante.

23/Abr/2007

 

Adelantado de mar


 

Do 25 de Abril - II

..
A cooperativa, a enxada e o inesquecível Camilo Mortágua em Torre Bela (1975) de Thomas Harlan.

22/Abr/2007

 

Do 25 de Abril - I


Um Tractor

Um tractor
quando é usado com amor
com o amor da terra nas rodas
quando é usado para todas
as bocas que dele dependem
quando os que o usam se entendem
para dividir o produto
segundo as necessidades
unindo a máquina ao fruto
unindo o campo às cidades.

Um tractor
dá que fazer ao suor
dos que põem na sementeira
as sementeiras da maneira
como as coisas se farão
e o nome revolução
pode bem ser atribuido
a um tractor assim usado
a um braço assim estendido
entre o futuro e o passado.

Um tractor
trabalha a todo o vapor
quando a gente que o trabalha
não tem nada que lhe valha
a não ser a sua vida
mal amada e mal sofrida
a não ser a sua história
embora de má memória
a não ser a alternativa
que é a vida na cooperativa.

Sérgio Godinho (composta e cantada em homenagem a Camilo Mortágua e às cooperativas fundadas pela LUAR. É inspirada, muito especialmente, na experiência de Torre Bela).

Imagem: Michael Quarez, Soutien à la Révolution des Oeillets

 

«Era o Fumo» - I

Caroline Aaron
Na sequência da magnífica crónica de João Bénard da Costa que Rui Bebiano reproduz, dá-se início a uma galeria de personagens em honra dessa «léria da liberdade».

18/Abr/2007

 

O Lusitano - II


O fémur da mulher lusitana em toda a sua pureza.

Imagem: CSA

15/Abr/2007

 

Conceitos que foram p'ró maneta

ARETE




Werner Jaeger, 1995

14/Abr/2007

 

O Lusitano

Bibliografia:
1 - Gomes, Pinharanda, História da Filosofia Portuguesa
2 - Correia, Mendes, Raça e Nacionalidade; As Raças do Império, etc.
3 - Sarmento, Martins, Os Lusitanos
4 - Leão, Francisco da Cunha, O Enigma Português (ah, aqui fazem-se umas perguntas curiosas, e.g., «Portugal é um país «natural»? Que desígnio «artificial» o concebeu? A que sonho «real» temos direito? De que caminho «transnatural» dispomos para o alcançar?»
etc., etc., que seria curioso confrontar, por exemplo, com Henri Lefebvre, designadamente, neste momento, cada vez mais actual, Le nationalisme contre les nations ou Qu'est-ce que penser? (Faria bem a muito menino escrevinhador de jornais...). Um pequeno périplo:
Sobre o conceito de Nacionalismo; Homenagem a Henri Lefebvre; O Método de Henri Lefebvre...
...mas sobretudo sobre o conceito de Etnicidade, que é uma coisa que anda sempre muito baralhada.

Imagem: Costa Pinheiro, O Lusitano

13/Abr/2007

 

Com'é qu'é agora?

- Psiu! estão a falar do nosso primeiro...
- ... com'é qu'é agora c'o Benfica, pá?

 

Cadeira

Creio que em 1987, assisti a uma conferência de Habermas sobre «A Ideia de Universidade». Passando em revista as ideias de Humboldt, Schelling e Schleiermacher, foi falando do «esclarecimento crítico» (Auflkarung) e da forma como, na Alemanha do século XIX, a instituição dera origem a estratos profissionais com forte prestígio social, contribuindo de maneira fundamental para o desenvolvimento do país. Elogiou o papel da mesma na busca descomprometida e na ideia dos processos de aprendizagem.
Conheci ainda um ou outro grande germanista e fui tentando apr(e)ender-lhes - tarefa impossível - a obra e a «liberdade livre»: culta, metódica, consciente, investigativa. Percebo agora cada vez melhor a tensão entre realidade e ideal, mas regresso a Habermas e à sua teoria crítica da intelligentsia tecnocrática e da política burocrática do socialismo «científico», ainda que sobretudo terapêutica, de revitalização moral, mais do que política, para exclamar - reclamar - o que não entrevejo: por que se demitiram os intelectuais, os pensadores «produtores de sentido»?
A sociedade moderna é, definitivamente, espectáculo, «sociedade de massas», sem paradigma. A não ser o da cadeira, com mato à volta. Uma tristeza!

Imagem: Dana Gallagher

11/Abr/2007

 

Cegada

A entrevista do Luiz Pacheco no Correio da Manhã.

10/Abr/2007

 

Pacatez

- ... sexo?
- É um rapaz pacato.

 

Variações sobre a admiração - IX

Reincarnado no ministro Mudo que hoje meditou perante a nação sobre a Independente, por momentos em êxtase de regozijo sobre o seu avatar, distribuiu caridades no reconhecimento de que há que dar «credibilidade» à coisa. Assim seja: proferido está o despacho.

Imagem: Nam June Paik, TV Buddha

9/Abr/2007

 

«Um charuto é apenas um charuto», disse Freud...

...a menos que...


Porque a história não é nova: já Rodrigo de Jerez, dado como possuído pelo demónio devido ao fumo foi enviado para a prisão pelo Santo Ofício. E depois chegou a tragédia com a Pérsia, o Japão, a Turquia, a Rússia... Mas vale mais ler a sintaxe destas coisas em «O Vício Esplêndido».

8/Abr/2007

 

Ainda sobre a Memória: «La rabia»

«Si digo que era un ángel, creo que no se podría decir nada más estúpido de él. ¿Un ángel pintado por Cosimo Tura? No. ¡Hay un San Jorge de Tura que es su vivo retrato! Le horrorizaban los santos oficiales y los ángeles beatíficos. Entonces, ¿por qué decirlo? Porque su habitual e inmensa tristeza le permitía compartir bromas, y la expresión de su rostro afligido repartía carcajadas adivinando quién las necesitaba más. Y cuanto más íntimo era su contacto, más lúcido se volvía. Podía hablarle a la gente con suaves susurros sobre las cosas terribles que le pasaban y, en cierta manera, sufría un poco menos. "... porque nuestra desesperación nunca está exenta de un poquito de esperanza". "Disperazione senza un po di speranza". Pier Paolo Pasolini (1922-1975).
Creo que dudaba mucho sobre sí mismo, pero nunca de su don profético, que quizá fuera lo único de lo que le habría gustado dudar. Sin embargo, al ser profético, viene en nuestra ayuda para interpretar nuestras vivencias actuales. Acabo de ver una película de 1963. Es asombroso que nunca se distribuyera. Llega como un mensaje providencial que, cuarenta años después, es arrastrado a nuestra playa dentro de una botella.

En 1962 la televisión italiana tuvo una brillante idea: la de invitar a un director de cine a responder a la pregunta: ¿por qué en todo el mundo se teme a la guerra? El director tendría acceso a los archivos de los informativos televisivos del periodo 1945-1962 y podría editar el material que quisiera y redactar un comentario para acompañarlo. El programa sería de una hora. La pregunta era "candente" porque, en ese momento, el miedo a otra guerra mundial cundía realmente por doquier. La crisis de los misiles nucleares entre Cuba, Estados Unidos y la URSS había tenido lugar en octubre de 1962.

La televisión preguntó a Pasolini, que ya había realizado Accattone, Mamma Roma y La ricotta, y que era una figura polémica habitual en los titulares. Y éste aceptó. Rodó la película y la tituló La rabbia [La rabia].

Cuando los productores la vieron, les entró miedo e insistieron en que otro director, el periodista Giovanni Guareschi, bien conocido por sus ideas derechistas, hiciera una segunda parte y que ambas películas se presentaran como si fueran una sola. Al final, ninguna de las dos se emitió.

Yo diría que La rabbia no se inspira en la cólera, sino en un feroz sentido del aguante. Pasolini observa lo que ocurre en el mundo con una lucidez inquebrantable. (Hay ángeles dibujados por Rembrandt que tienen la misma mirada). Y lo hace porque la realidad es lo único que podemos amar. No hay nada más.

Su rechazo de las hipocresías, medias verdades y falsedades de los codiciosos y los poderosos es total, porque alimentan y fomentan la ignorancia, que es una forma de ceguera frente a la realidad. También porque profanan la memoria, incluso la memoria del propio lenguaje, que es nuestro principal patrimonio.

Sin embargo, la realidad que amaba no podía asumirse sin más, porque en ese momento representaba una decepción histórica demasiado profunda. Las antiguas esperanzas que florecieron y se ampliaron en 1945, después de la derrota del fascismo, habían sido traicionadas.

La URSS había invadido Hungría. Francia había iniciado su guerra cobarde contra Argelia. El acceso a la independencia de las antiguas colonias africanas era una farsa macabra. Lumumba había sido liquidado por los títeres de la CIA. El neocapitalismo ya estaba planificando su toma del poder mundial.

Sin embargo, pese a todo, lo que se nos había legado era demasiado precioso y demasiado problemático como para abandonarlo. O, dicho de otra manera, era imposible dejar a un lado las tácitas y ubicuas exigencias de la realidad. La exigencia que había en la forma de llevar un chal. En el rostro de un muchacho. En una calle llena de gente exigiendo menos injusticia. En la carcajada de sus expectativas y en la temeridad de sus bromas. De ahí surgía su cólera frente al aguante.

La respuesta de Pasolini a la pregunta planteada inicialmente era sencilla: la lucha de clases explica la guerra.

El filme termina con un soliloquio imaginario de Gagarin, que, después de observar la Tierra desde el espacio exterior, comenta que todos los hombres, vistos desde esa distancia, son hermanos que deberían abjurar de las sangrientas prácticas del planeta.

Sin embargo, lo esencial es que la película contempla experiencias que tanto la pregunta como la respuesta dejan de lado. La frialdad del invierno para los indigentes. La calidez que el recuerdo de los héroes revolucionarios puede reportar, el carácter irreconciliable de la libertad y del odio, el aire campesino del papa Juan XXIII, cuya mirada sonríe como una tortuga, las culpas de Stalin, que eran las nuestras, la diabólica tentación de pensar que las luchas han terminado, la muerte de Marilyn Monroe y la belleza, que es lo único que queda de la estupidez del pasado y el salvajismo del futuro, la naturaleza y la riqueza, que son la misma cosa para las clases pudientes, nuestras madres y sus lágrimas hereditarias, los hijos de los hijos de los hijos, las injusticias que surgen incluso de una noble victoria, el pequeño pánico en los ojos de Sofía Loren al observar a un pescador abrir con las manos una anguila en canal...

ponen a la filmación en blanco y negro los hacen dos voces anónimas, que en realidad son las de dos amigos suyos: el pintor Renato Guttuso y el escritor Giorgio Bassani. Una es como la voz de un comentarista apresurado y la otra como la de alguien medio historiador y medio poeta, la voz de un adivino. Entre las principales noticias figuran la revolución húngara de 1956, la candidatura de Eisenhower para una segunda legislatura como presidente de Estados Unidos, la coronación de la reina Isabel de Inglaterra o la victoria de Castro en Cuba.

La primera voz nos informa y la segunda nos recuerda. ¿El qué? No exactamente lo olvidado (es más astuta), sino más bien lo que hemos decidido olvidar, y con frecuencia esas decisiones comienzan en la infancia. Pasolini no olvidó nada de su infancia: de ahí que en su búsqueda coexistan siempre el dolor y la diversión. Se nos avergüenza por nuestro olvido.

Las dos voces funcionan como un coro griego. No pueden influir en el resultado de lo que se nos muestra. No interpretan. Cuestionan, escuchan, observan y dan voz a lo que el espectador puede estar sintiendo, con más o menos incapacidad para expresarlo. Y lo logran porque son conscientes de que el lenguaje, al compartirlo los actores, el coro y los espectadores, es el depositario de una antiquísima experiencia común. El propio lenguaje es cómplice de nuestras reacciones. No se le puede engañar. Las voces se alzan, no para rematar un argumento, sino porque, dada la longitud de la experiencia y el dolor humanos, sería vergonzoso que no dijeran lo que tienen que decir. Si no se dijera, nuestra capacidad para ser humanos se vería algo reducida.

En la Grecia antigua el coro no se componía de actores, sino de ciudadanos varones, elegidos para ese año por el director del coro, el choregus. Representaban a la ciudad, venían del ágora, del foro. Sin embargo, al ser el coro se convertían en las voces de varias generaciones. Cuando hablaban de lo que el público ya había reconocido, eran abuelos. Cuando daban voz a lo que el público sentía pero había sido incapaz de expresar, eran los no nacidos.

Todo esto lo hace Pasolini sin ayuda de nadie por medio de sus dos voces, mientras aprieta el paso rabioso entre el mundo antiguo, que desaparecerá con el último campesino, y el mundo futuro del cálculo feroz.

En varias ocasiones el filme nos recuerda los límites de la explicación racional y la frecuente vulgaridad de términos como optimismo y pesimismo.

Anuncia que los mejores cerebros de Europa y de Estados Unidos explican teóricamente lo que significa morir (luchar junto a Castro) en Cuba. Pero lo que realmente significa morir en Cuba -o en Nápoles o en Sevilla- sólo puede decirse con compasión, a la luz del canto o las lágrimas.

¡En otro momento nos propone a todos que soñemos con el derecho a ser como eran algunos de nuestros antepasados! Y después añade que sólo la revolución puede salvar el pasado.

La rabbia es una película sobre el amor. Su espíritu está muy cerca del comentario que hace Simone Weil en La pesanteur et la grace de Simone Weil: "Amar a Dios más allá de la destrucción de Troya y Cartago, y sin consuelo. El amor no es consuelo, es luz".

O, por decirlo de otro modo, su lucidez es como la del aforismo de Kafka: "En cierto sentido, el Bien es inconsolable".

Por eso digo que Pasolini era como un ángel.

una hora ideada, medida y editada hace cuarenta años. Y contrasta tanto con los noticiarios que vemos y con la información que nos ceban en la actualidad que, al terminar la hora, te dices que hoy en día no sólo están desapareciendo y extinguiéndose especies animales y vegetales, sino prioridades humanas que, una tras otra, están siendo sistemáticamente rociadas, no de pesticidas, sino de eticidas: agentes que matan la ética y, por consiguiente, cualquier idea de historia y de justicia.

Especialmente atacadas se ven aquellas de nuestras prioridades que proceden de la necesidad humana de compartir, legar, consolar, condolerse y tener esperanza. Y los medios informativos de masas nos rocían día y noche con eticidas.

Puede que los eticidas sean menos efectivos, menos r